O livro “Ensaio sobre a Cegueira” Comprei o livro “Ensaio sobre a Cegueira” na Feira do Livro de Lisboa de 2015, após recomendação de uma amiga. Só 4 anos depois, comecei a ler, no momento em que José Saramago, foi escolhido pelo Clube de Leitura do qual faço parte. Fiquei-me pelas primeiras 40 páginas, pois o livro “Todos os nomes” também do mesmo autor, criava expectativas inusitadas e acabou por ganhar a batalha do lugar da minha cabeceira. O “Ensaio sobre a Cegueira” passou rapidamente para segundo plano. Com a quarentena obrigatória que vivemos, decidi pegar no livro novamente. Não o fiz, porque tivesse nos tops dos autores mais procurados. Sou um pouco imune às tendências. A verdade é que me recordava que nessas 40 páginas, as palavras quarentena, isolamento, contágio, urgência social, crise sanitária estarem bem presentes e fazerem eco no momento actual. Descobri também a resistência de ler o livro: a cegueira e a sua ténue inevitabilidade em familiar próximo impedia-me de separar os dois cenários, realidade e ficção. Diferenças entre realidade e ficção Contudo, era de uma realidade ficcionada e de uma ficção realista que envolvia as primeiras semanas de quarentena. Por um lado, o evoluir da situação na trama daquele conjunto de cegos e da respectiva propagação do «mal-branco» e por outro, as manhãs de telejornais amaldiçoadas pela velocidade galopante de propagação do coronavírus por todo o mundo. Ansiei por chegar ao final do livro para perceber se a humanidade tinha ou tem futuro na ficção para dar força e voz à confiança, que a nossa voz interior terá de decorar para voltarmos a abrir a porta de casa. Neste livro de Saramago, as personagens não têm nomes, não há a Maria nem o José, não é necessário. Mais uma vez, o autor é sublime em caracterizar as personagens – a mulher do médico, o médico, o primeiro cego, o velho da venda preta, entre outros -, para conseguirmos imaginar a sua personalidade e características físicas. De facto, um nome não define uma pessoa, mas uma pessoa define um nome. Fala-se do desconhecido e sobretudo, do amanhã. Como será? Imaginamos o horror do desconhecido e da desconfiança atrás da porta. Fala-se da importância das notícias, procura-se a verdade. Vive-se de expectativas e em ansiedade permanente. Fala-se de governação, de gestão de crise, do caos. Percebe-se a desorganização social, o desaire económico e a tentativa de procurar como e quando o equilíbrio poderá voltar a surgir. Fala-se de compaixão. Das emoções e ações que nos unem. Fala-se de Nós. Não existe os Outros. No fim, fala-se de esperança. Descubra este e outros livros do autor no site da wook ou da livraria bertrand.
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