Entrevistas do Leitor,  Leituras do mundo

Folhear a Dinamarca

«O rapaz do espelho», de Álvaro Magalhães

A Dinamarca é um país de grandes estrelas literárias na minha vida, desde o Petzi, cujo nome de origem é Rasmus Klump e que me contagiou desde muito cedo com o espírito descontraído e focado nas coisas boas da vida, até Hans Christian Andersen, autor de histórias bem conhecidas como «A Pequena Sereia» ou «O Patinho Feio» e outras menos conhecidas, talvez até mais representativas da alma boémia e pragmática dos dinamarqueses, como “O rapaz do espelho” que traduz às crianças, as várias facetas e crenças sobre a morte e o que acontece depois, mas também o valor da incerteza e como aceitar viver com ela. Não esquecendo, claro, Karen Blixen e o seu «África Minha», que dispensa apresentações.

Vou-me agora dividindo entre um livro dinamarquês e outro português, mas de autores diferentes.

Em «Så er Thomas væk», Charlotte Bork Høvsgaard retrata a breve doença e a morte súbita do marido. Thomas é diagnosticado com cancro em Outubro e morre duas semanas depois. Charlotte tem de lidar com a sua dor, ansiedade e desligar-se de Thomas, pois não há como voltar atrás. Esta história fala sobre como é perder um familiar próximo, a travessia ao longo dessa experiência e o período que se segue à morte.
O tema da morte e da perda são abordados desde muito cedo na Dinamarca, desde a escola primária. A forma como lidam com a morte na Escandinávia pode parecer fria ou distante para os países do sul da Europa, mas parece-me ser sobretudo pragmática. Aqui também se sofre com a perda, mas leva-se mais a sério a saúde mental das pessoas que ficam e de um modo geral, aceita-se que a morte faz parte da vida.

Por outro lado, sigo a deliciosamente crua história de Elena e Lila no último volume do quarteto napolitano, que também inspirou a série da HBO «My brilliant friend», com o mesmo título do primeiro volume dos livros de Elena Ferrante. Aqui revivem-se memórias de tempos passados, sobretudo contados pela boca dos nossos pais e avós com vivências muito idênticas à dos habitantes da antiga Nápoles nas vilas e aldeias de Portugal e Espanha. Sentem-se as dores de ser mulher naquela época e pior, de querer ser independente e brilhar no que se sabe e quer fazer e ter de recuar, disfarçar o brilho e a capacidade para não perder terreno na dura e lenta conquista do direito a viver, do direito a ser.

Vista da casa da Ana na Dinamarca

Boas histórias por aí .🤗

Ah… não disse o que sinto mais saudades de Portugal! Da farinheira e das pessoas, claro 😊E peixe grelhado também.

Ana Eugénio, advogada, Dinamarca

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