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Papa Livros – O que andámos a ler em Novembro 2020?

Um novembro de murros no estômago. Livros que nos abalam pelo realismo do que circula por aí. Salvem-se os valores!

Podia não ter lido o livro, mas fi-lo ontem de enfiada por 2 motivos, 1ª, pela curiosidade de ler o que autor @valterhugomae que muito admiro, prefaciava e 2º, por ver que muitos seguidores correram a comprar e a ler. Li e não me arrependi. Cristina Ferreira põe o dedo na ferida na impunidade e no ódio que existe nas redes sociais. Sim, uma impunidade com nome, mas sem rosto, que tomado pelo impulso, pela má educação e pelo vale tudo, semeia o ódio, permeia a ofensa moral. Há uma grande diferença entre a cobiça e a inveja. Cristina veio de origens humildes, sonhou, trabalhou e conquistou (ou melhor, conquista). Podemos cobiçar ter 1/4 da sorte, do dinheiro, da fama, mas não podemos pôr em causa a dignidade humana e achar que vale tudo! Isso é crime. Tarda, a lei que identifique quem julga, maltrata! Num mundo do voyeurismo, dos deslumbramentos, há quem cultive o ódio. Como refere Valter Hugo Mãe: «as pessoas retornam à rede muito mais vezes se estiverem em fúria do que se estiverem em paz. A fúria é obstinada, a paz sente pressa nenhuma.» Nos meus tempos de assessora do presidente de uma multinacional, sei o que é passarmos de bestiais a bestas num segundo. Tudo é observado, mensurado e criticado. Trabalhando na área de comunicação, tenho de tirar o chapéu à @dailycristina que consegue proteger a sua família e privacidade. Num mundo de imagem, dos chamados “influencers”, Cristina gere isso com pinças. Não é tola, é conhecedora.Este livro poderia ter sido escrito por um jurista, por um sociólogo ou piscólogo, mas foi escrito por quem sofre todos os dias com este ódio e que tem uma voz. Voz que quer pôr os holofotes para o que anda por aqui. Joana Rita Sousa da @filocriatividade fala do impulso dos likes, do comentário e pede a nossa reflexão:«imagine que o seu epitáfio é o último comentário que fez numa rede social» e aconselha «da próxima vez que pensar em escrever um comentário, pense mesmo antes de o fazer. Que valor vai acrescentar ao seu dia e ao dia daqueles que vão ler? É informativo? É divertido? É respeitoso? É pedagógico? É um ataque pessoal? O que significa? Se fizer estas perguntas todas é bem possível que perca a vontade de comentar.»

Helena Sacadura Cabral é uma referência no jornalismo. Foi aí que a conheci, quando tive o privilégio de trabalhar numa revista liderava. Mais do que as lições de jornalismo, a Helena partilhou o que é ter valores. Reli este livro. Sim, recebi-o há menos de um mês e tive necessidade de o reler. Este é daqueles livros para se ter sempre na mesinha de cabeceira e abrir ao acaso antes de ir dormir. Convida a reflexão e a introspecção. Este livro é urgente. Fala de valores, de conceitos. Com a lucidez que lhe é característica, Helena suscita o questionamento sobre valores e a sua transformação na sociedade de hoje; a importância da formação; a necessidade de esclarecer conceitos que muitas vezes vemos usar ou usamos sem perceber bem a respectiva diferença e convida a ouvirmos quem somos. Alguns dos conceitos das imagens foram os apontamentos que mais me marcaram. Achei curioso ao iniciar o livro com o conceito de alegria ter recordado um escritor também da casa Manuel Vilas que referia numa sessão do Ler olhos nos olhos produzida pela The Book Company para o Bibliotecas Municipais de Oeiras ter explicado a diferença entre alegria e felicidade. Alegria é orgânica e biológica, felicidade (até como podemos ver pelo que se passa nas redes sociais) é definida por um sistema social. Não podiam estar mais certos! E, a questão da bondade… sim, que mais que uma qualidade humana é enriquecida por uma decisão ética e a tolerância que “pressupõe o respeito mútuo e, acima de tudo, o entendimento mútuo, inclusive quando não se partilha dos mesmos valores. as diversas formas de entender a vida.” Parece fácil, mas muitas vezes confundido com aprovação. “Tolerar não é o mesmo que concordar. A pessoa tolerante não aprova aquilo que tolera, mas suporta a sua existência.”Termino com uma graça. Vocês sabem o quanto eu gosto do outono. Helena também e explica algo que nos une “sou mais das quadras intermédias (…). Essa tristeza outonal é o bálsamo indispensável para compensar os cúmulos estivais.”Um ABC da Vida que reflecte sobre a transformação da escala de valores.

Tânia Ganho, tradutora deste livro, explica porque devemos ler este livro.

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