Gente c/ histórias no sangue

Diana Carvalho – Gente com histórias no sangue

Diana Carvalho é escritora, produtora, editora, revisora de textos e fundadora da Alfarela Studios, que “faz” livros como se de uma oficina de artesão se tratasse. Aqui o detalhe importa e o livro assemelha-se a um corpo na sua forma mais orgânica.

Em semana de celebração do primeiro aniversário, Diana Teixeira de Carvalho dá voz aos livros, que ganham vida e humanidade nas suas palavras, perdendo-se o seu olhar de livro-objeto. Desde cedo, a nossa convidada nunca perdeu a vontade de historiar e, hoje, faz disso profissão.

Mas mais do que uma profissão e até um prazer, a leitura e os livros foram o seu refúgio, a sua companhia, o seu ombro amigo que fala através das palavras… a sua cabana, a sua proteção, a sua salvação. Salvação, sentido literal da palavra. Salvação, que passa por um tempo de profunda dor como a morte de um filho. «Já vivi momentos na minha vida que – posso dizer em voz alta – apenas conseguiu superar através da ajuda de boas leituras. Chega a dizer: «Lamentavelmente, passei por essa vontade de afastar as pessoas de mim. E foi aí que os livros foram os meus fiéis conselheiros, deram-me exemplos a copiar, fizeram-me imaginar mundos novos que eu iria viver, conseguiram entrar em mim e mostrar que, dia após dia, a dor ia atenuar e eu iria superar aquele momento. A esperança de um futuro sem o meu filho nasceu nas histórias que li durante meses a fio. Se isto não é uma relação séria com os livros, então não somos nada.»

1. Se te tivesses de dar um título como te definias?

Confesso que consigo imaginar muitos “títulos” ou então, nomes de código como lhes prefiro apelidar. Como tenho tantas facetas, tantos humores, fica difícil escolher apenas um, um dia sou a introvertida, noutro dia sou a que tem mais energia, ou a mais sonhadora. Sou muito transparente e raramente consigo disfarçar estados de espírito. Mas penso que aquele que me explica melhor é “cigarra duracell”, um nome que herdei do tempo em que fui escuteira e que nunca deixou de me acompanhar, porque eu estou sempre a falar, a contar histórias, a questionar, sempre tive algo a dizer e parecia que nunca perdia essa vontade de historiar sobre determinado tema. Ainda hoje sinto essa necessidade de contar ao mundo o que merece ser relembrado.

2. Fala-nos do teu projecto. O que o diferencia em Portugal? Qual o móbil?

A Alfarela Studio nasceu da proximidade muito íntima que tenho com os livros e com a literatura. Cresci a ler todo o género de livros que os meus pais tinham em casa e a ouvir histórias contadas por imensas pessoas que habitaram a minha infância e depois comecei a participar e ganhar os prémios de escrita dos tempos de escola, fossem trabalhos pedidos pelos professores ou então trabalhos enviados para os jornais, para a área-escola ou rádio escolar. Até a escrever para o teatro me aventurei, quando era adolescente. Essa relação com a leitura e com a escrita foi ganhando uma forma mais complexa, até ao dia em que editei o primeiro romance. A sensação foi tão encantadora que nunca mais parei e soube que essa era a minha vocação. No entanto, a minha vida profissional já tinha seguido outro rumo na área de Marketing e Comunicação e ainda demorei 8 anos a abrir a minha própria empresa de fazer livros, como gosto de lhe chamar. Nesses 8 anos acabei por escrever alguns livros como escritora fantasma e adorei a experiência. Infelizmente, em Portugal, o escritor-fantasma ainda é encarado com desconfiança, mas, aos poucos, isso também está a mudar. Consegui dar voz a pessoas que não seriam capazes de escrever um livro por falta de tempo, ou de conhecimento para o fazer, ou simplesmente porque não sabiam como organizar a história que queriam contar. Estamos a falar de indivíduos com boas histórias de vida, como empresários de grandes carreiras, biografias notáveis e até romances. Foi um caminho muito gratificante que me levou a considerar esta vertente. A Alfarela Studio é um pouco a união da minha vontade de escrever e ajudar outras pessoas a contarem a sua história e a necessidade de apoiar a literatura e a cultura em Portugal. Ainda estamos na fase 1, a Alfarela terá mais duas fases que passarão por outros projetos ligados à promoção da cultura literária, até ao final de 2021. Um dia, disseram-me que não havia ninguém em Portugal que fazia o que a Alfarela Studio faz: criar um livro, desde a raiz, trabalhando o seu esqueleto e todos os componentes necessários para que chegue a casa do leitor. É obvio que as editoras fazem isso, mas penso que talvez não o façam de uma forma tão personalizada e íntima como a Alfarela o faz. Então, imagina que queres fazer um livro biográfico em que será necessário pensar no índice, agendar e acompanhar as sessões fotográficas, escrever todos os capítulos, escolher o styling do projecto, os materiais, a impressão…  enfim, tudo é pensado, até ao mais pequeno detalhe e em linha condutora com o autor, o verdadeiro autor da história. E ainda vêm aí mais novidades que não posso revelar para já.

3. Tens uma relação séria com a leitura ou preferes encontros sem hora marcada?

Tenho uma relação muito séria com a leitura! Já vivi momentos na minha vida que – posso dizer em voz alta – apenas consegui superar através da ajuda de boas leituras. Passei uma péssima temporada em 2019 quando o meu filho faleceu e os livros foram os meus melhores amigos. Naquele momento em que o mundo nos cai em cima e tudo o que queremos é o silêncio supremo, não conseguimos estar com pessoas reais, pois tudo o que dizem é ruído doloroso. Lamentavelmente, passei por essa vontade de afastar as pessoas de mim. E foi aí que os livros foram os meus fiéis conselheiros, deram-me exemplos a copiar, fizeram-me imaginar mundos novos que eu iria viver, conseguiram entrar em mim e mostrar que, dia após dia, a dor ia atenuar e eu iria superar aquele momento. A esperança de um futuro sem o meu filho nasceu nas histórias que li durante meses a fio. Se isto não é uma relação séria com os livros, então não somos nada.

4. Devoras livros ou estás em dieta?

Obrigo-me a saltar, intermitentemente, entre estas duas fases. O meu estado natural é com um livro na mão, sentada no sofá ou no jardim a ler, absorvida pela história. Mas quando estou imersiva num projecto novo, na escrita de um livro ou em algum outro trabalho importante, não posso ler livros desta forma, preciso de fazer a tal dieta. Costumo dizer que sofro de uma patologia obsessiva, pois crio demasiada empatia com as personagens das histórias que leio e, até terminar o livro, eu não consigo fazer mais nada porque é muito difícil abstrair-me da personagem. É uma fraqueza que me acompanha há muitos anos, mas já aprendi a lidar com ela e encontrei um equilíbrio.

5. Dizem que os nossos pais e avós eram para nós o livro (já que quando somos mais novos apenas vemos as imagens e somos ouvintes), eram os nossos contadores de histórias. Guardas histórias de infância ou apenas berlindes?

Guardo imensas histórias de infância. Recordo muitas vezes as histórias e lengalengas que a minha avó Margarida nos contava, somos 8 netos. Adorávamos ouvi-la dizer aquelas palavras cantadas. Tive uma infância muito feliz e cresci com todas as minhas primas numa base diária, pelo que fazer histórias era a nossa brincadeira favorita. E depois ainda obrigávamos os nossos pais a ouvi-las, a ver as peças de teatro que inventávamos. O maior contador de histórias é o tempo, nós só precisamos de parar e ouvir.

6. Qual a personagem ou personalidade (viva ou já desaparecida) que gostarias que te contasse uma história? E, porquê?

Adorava ouvir o meu filho a contar-me uma história. No entanto, é uma utopia e nunca vai acontecer, então é algo que imagino vezes sem conta e, de cada vez que imagino, é sempre diferente. A história, a voz, o entusiasmo. Isso ajuda-me a dar mais valor à atualidade, ao presente e às pessoas que me rodeiam. Aprendi a dar o meu tempo ao tempo dos outros. Para nunca mais ter de imaginar como seria.

7. O que achas que não deve faltar numa biblioteca pessoal e porquê?

Um dicionário é a cola que une todos os livros. Desde que somos crianças e começamos a dar os primeiros passos na leitura até que começamos a escrever com mais afinco, saber o significado das palavras que usamos e aprender palavras mais complexas é a chave para um maior entendimento da língua. Tenho muita preocupação com a crise linguística actual, em que o número de palavras com que habitamos é o mais diminuto de sempre. Uma biblioteca seja pessoal ou comunitária, deverá sempre ter dicionários, gramáticas e estimular o uso e a consulta destes livros. Eu ainda consulto dicionários, hoje em dia e sei que o farei durante muitos anos. O conhecimento que temos da língua é muito pequeno, temos de continuar a aprender a linguística.

8. O que substituías por um livro?

Um passeio no meio da serra. Atualmente, poucas coisas me preenchem mais do que o silêncio da natureza, a tranquilidade da montanha. Ali, onde tudo se passa, mas pouco se vê, é preciso estar atento para entender o que nos rodeia. Os códigos da natureza estão à vista para serem descobertos: é como um livro, aprendemos sempre algo novo, encontramos sempre uma boa história que a serra nos conta ou nos faz imaginar.

9. A cabeceira treme de livros ou apenas com o despertador do telemóvel? O que tens por lá?

Habitualmente, tenho sempre dois livros na mesinha de cabeceira. De momento é a biografia da Rita Lee, que me ajuda a inspirar o meu lado mais irreverente, mais lutador e sofisticado e uma série de entrevistas biográficas de Gabriel Garcia Márquez que me remete para a literatura, o sonho do imaginário. Mas estes não são os livros que estou a ler, são mais os livros que eu preciso de ver. A mesinha de cabeceira funciona mais como estados de espírito. Por vezes troco e rodeio-me de outros livros que estejam a precisar de ser vistos.

10. Tens livros de vida ou a tua vida dava um livro?

É muito complicado escolher apenas um ou dois livros que se enquadrem neste perfil. Cada livro que leio significa algo tão honesto e íntimo que qualquer título que nomeie será considerado muito redutor. No entanto, a Poesia aqui assume um papel muito importante para mim, pois é uma porta aberta para uma vida nova. Através da poesia o mundo desdobra-se e novas vidas nascem e essa é uma viagem maravilhosa que faz de qualquer vida um bom livro.

11. Uma decisão na vida que mudaste inspirada pela leitura de um livro. Qual?

Poderia dar muitos exemplos, pois sinto que sou influenciada pelos livros que leio, faço muitas reflexões sobre os temas descritos. Todos os livros nos mudam, disso tenho a certeza. Recordo que quando era adolescente e li todos os livros do Paulo Coelho, tomei a decisão mais ingénua da minha vida: decidi que queria ser uma boa pessoa, nem eu sabia ainda qual a profundidade do significado disso. Os imaginários mágicos das personagens eram tão imersivos… Mas ainda me lembro qual o livro que me fez decidir que queria ser escritora, foi o “Se o Amanhã Chegar”, de Sidney Sheldon. Foi o primeiro livro de literatura para adultos que li e gostei tanto dessa sensação que, com 11 anos, tomei a grande decisão da minha vida.

12. Um bom livro existe ou é ficção? Existem livros maus?

Em primeiro lugar, não acredito que existam maus livros. Podem existir livros feios, desprovidos de beleza textual, de imaginário, até de uma estrutura bonita, o que dificulta a leitura. Muitas vezes, esta é a razão pela qual muitos jovens alegam aversão aos livros. No entanto, nenhum livro reúne todos estes defeitos. Há sempre algo de novo que detalha o livro que temos na mão. E há sempre forma de tornar os livros mais bonitos – pensar os livros é o que fazemos na Alfarela Studio, por exemplo. Além de fazermos livros novos, por vezes repensamos os livros que já existem, dando mais beleza literária a uma edição que não resultou muito bem. E o segredo de um bom livro está aqui mesmo, no pensamento. Um livro pensado é um livro com uma estrutura leve e dinâmica, com uma história bem contada e, no final, o resultado será uma leitura apreciada e entusiasmante. Existem bons livros para momentos específicos e bons livros para cada pessoa.

13. Qual o livro que mais recomendaste até hoje?

Não me canso de aconselhar qualquer um dos livros de Mia Couto. Na minha opinião, é um dos grandes escritores da nossa época, que conseguiu alcançar um ponto de viragem na literatura e na forma de contar histórias. É fascinante poder olhar para Mia e assistir em tempo real enquanto ele muda o curso da história da literatura lusófona. Através dos seus livros, Mia conseguiu elevar as suas raízes a um patamar que desconhecíamos, mas que aprendemos a respeitar. Admiro muito “A Confissão da Leoa” ou o “Mapeador de Ausências”, mas poderia declamar todos os seus poemas que, ainda assim, seria pouco para recomendar.

14. Se fosses um não leitor, qual o conselho que te davas? Qual/quais os livros que aconselharias a quem não tem o hábito de leitura?

Esta é uma pergunta que não tem uma única resposta. A escolha dos livros é tão pessoal que não consigo encontrar uma fórmula que resulte com todos. No entanto, é possível aconselhar livros de acordo com a idade, o estado de espírito, a situação da actualidade, os desejos ou traumas de cada pessoa. Poderia aconselhar a iniciação com alguns contos, textos mais pequenos e menos complexos, onde o imaginário e a catarse estão muito próximos do leitor. O que transformará uma pessoa comum num leitor assíduo é a empatia que criará com as histórias e as personagens que lê. E isso é uma metamorfose maravilhosa e necessária ao cérebro humano. Por acaso, é uma das novidades que teremos na Alfarela Studio, estamos a preparar um programa de biblioterapia para aconselhamento literário, onde daremos respostas e soluções literárias.

Entrevista a Diana Carvalho
ALFARELA STUDIO – COOLTURA EM PESO E MEDIDA
Produção de conteúdos literários

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