«Sou incapaz de ler vários livros ao mesmo tempo. Sinto uma espécie de infidelidade e de desrespeito.»
Ler com… Marta Rato Anico, 43 anos, casada, 2 filhos, antropóloga. Natural de Lisboa, vive na região de Rioja, Espanha, há alguns anos. A Marta recebeu-nos virtualmente em tempo de quarentena.
É apaixonada por livros e não tem dúvidas de que se pudesse escolher quando e onde tivesse nascido, Marta seria uma das primeiras mulheres a estudar na Universidade de Cambrige ou Oxford, nos finais de século XIX e não tem dúvidas, que gostaria de deixar um legado para futuras escritoras e leitoras.
Leituras de infância
Ainda guarda alguns livros da sua infância em Lisboa, alguns ainda em tecido, livros de contos tradicionais e a antiga Anita, agora Martine. Mais tarde vieram Os Cinco, as Aventuras de Suzy e no início da adolescência Agatha Christie e Arthur Conan Doyle. Aliás, pelas memórias deliciosas que guarda, a coleção Os Cinco não tem dúvidas em recomendá-la aos mais novos (8-10 anos), seguido pelo Diário de Anne Frank que marcou a sua adolescência.
O som da história contada é algo que recorda com saudade, principalmente “A toutinegra do moinho”. Surgia como uma lenga-lenga com sonoridade peculiar e narrada sempre de maneira diferente pela mãe. Até hoje, não sabe o que é uma toutinegra, nem se lembra do que fazia o moinho, mas sabe que o som reúne a alegria do adormecer de infância.
À cabeceira
O adormecer com a história contada criou hábitos de leitura diários. Como leitora procura livros que contribuam para o seu crescimento intelectual e emocional e mantendo o seu olhar de antropóloga, é sensível a livros sobre outras culturas e outros períodos da história. Prova disso, é que, neste momento, a cabeceira da Marta é colorida pelo livro The Storyteller’s Secret da escritora Sejal Badani, que reúne a riqueza do relato intergeracional e intercultural e outro livro da mesma autora, Trail of Broken Wings, que foi finalista do Prémio Goodreads para Melhor Livro de Ficção. Neste tempo de pandemia e de isolamento social, também devorou o Hold On, But Don’t Hold Still da Kristina Kuzmick, que escreve sobre o tema da parentalidade num tom ligeiro e divertido, através de uma história pessoal pouco superficial.
Porque gosta de ler?
São as personagens ricas e interessantes, escrita fluída e cativante aliado a um conteúdo enriquecedor que definem um bom livro. Sente que a leitura permite uma identificação com pessoas, as personagens, com vivências similares, que nos propõem um novo olhar, uma nova perspectiva e que nos trás conforto. Pelo percurso muito interessante e a experiência de vida que pode ser uma autêntica inspiração, Marta, após ter lido o livro escrito por Michelle Obama seria alguém que gostaria de conhecer. É também esse livro que sugere à ministra espanhola da Igualdade, Irene Montero, para assim ampliar horizontes e perceber o alcance do conceito de igualdade.
Viver o livro
A ligação emotiva às personagens e o abrir-nos a viver a história deixa-nos uma marca e um sentimento de “quase” abandono e a ansiedade de encontrar um livro igualmente semelhante. Marta revela que «emocionei-me muito com o relato de superação da Tara Westover em Educated. Muitas dificuldades e obstáculos, um contexto familiar violento e uma experiência de vida bestial. Fiquei muitas vezes com um nó no estômago. O mesmo aconteceu com The Kite Runner, de Khaled Hosseini. A crueza da vida no Afeganistão dista muito de tudo o que conhecemos no Ocidente. Um autor que a surpreendeu título atrás de título, foi Jhumpa Lahiri. Interpreter of Maladies, depois The Namesake e finalmente In Other Words considera desafiantes e imperdíveis.
Com a partida para o estrangeiro, deixou de ler autores portugueses e começou a ler alguma literatura espanhola, que abandonou, para descobrir em pleno a literatura inglesa e americana escrita por mulheres. Escolhe habitualmente pelo nome do autor, acompanhado pelas recomendações de amigos com gostos similares. A capa e o facto de ser autor premiado são factores menores.
Actualmente, em Espanha, lê-se novela negra e novela histórica, marcada pela guerra civil espanhola e outros acontecimentos e contextos históricos. Destaca alguns autores espanhóis tais como Maria Dueñas, Rosa Montero e Reyes Monforte. Desta última, gostou bastante do romance La Pasión Rusa, inspirada na relação do compositor Prokoviev com Lina, a espanhola com quem casou e o acompanhou desde o glamour de Paris aos gulags soviéticos.
Vícios de uma leitora
Já assinou os livros, assinalou a data de compra, a cidade onde foi comprado, sublinhou, escreveu pequenas notas., contudo deixou de o fazer! Contudo, confessa que “Nunca, nunca, nunca dobrei páginas. Uso sempre um marcador”. Igualmente é incapaz de ler vários livros ao mesmo tempo. Sente uma espécie de infidelidade e de desrespeito aos autores.
Quando lhe pedimos para sugerir uma lista de livros que devem ser obrigatórios numa biblioteca, refere que não acredita nessa lista, pois cada leitor é único, mas, sem dúvida, que na sua biblioteca não falta um bom dicionário.
O Desculpas para Ler deixa um presente para a Marta. Fomos i investigar o que era isso do tutinegra ou do toutinegra, que essa palavra existe e corresponde a uma ave, que deu nome a um livro de Émile Richebourg, “A toutinegra do moinho”, um romance inédito que, hoje em dia, encontra-se apenas disponível em alfarrabistas.
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