ADN do autor

Desabafos da 40tena

Algumas vezes com um tom humorístico, outras em que a tristeza se tornava mais premente, Joana Aires Pereira Leitão acompanhou-nos nestes 50 dias com as suas e as nossas inquietações.

  • Como é que surge este projeto de poesia na tua vida?

A Poesia surge precisamente da minha escrita impulsiva e da minha paixão por livros. Mais concretamente das minhas presenças assíduas no Ler|Ler, um clube de leitura organizado pela Escola de Escrita Criativa Escrever|Escrever. Este clube organiza na primeira quarta feira de cada mês uma sessão de leitura de trechos de livros sob um tema pré-definido. Como adoro ler, sou viciada nessas idas à Biblioteca Camões. No mês de Março, o tema é sempre Poesia e na primeira vez que participei, saí de lá deliciada. Descobri imensos autores e poemas e a partir daí não mais parei a minha busca e pesquisa por este género e claro comecei a desafiar-me pela escrita deste caminho.Como (ou com a ajuda de quem) descobriste a poesia?

  • Como (ou com a ajuda de quem) descobriste a poesia?

De certa forma foi como já contei, mas posso acrescentar que as formações que tenho feito de Escrita Criativa, como Escrever um Livro Infantil e Contador de Histórias, por exemplo me levaram a conhecer este novo caminho da Leitura e da Escrita, não novo para mim claro, mas apagado no meio da minha compra corrente de livros. Agora é ao contrário não saio de uma livraria sem um livro de Poesia e dou por mim a escrever e a pensar poemas.

  • Costumas aconselhar poemas para determinadas pessoas/fases da vida, como quem aconselha um livro?

É engraçada essa pergunta, porque agora são os amigos que me pedem. Ainda outro dia uma amiga me pediu que lhe aconselhasse uma poesia para dedicar a um amigo. Como tenho o vício de partilhar poemas ou fragmentos de poemas, de alguma maneira sinto-me a aconselhar essa leitura, sim. 

  • Existe algum poema que te ocorre nesta fase de pandemia? (algum em destaque?)
Ausência
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua
Sophia de Mello Breyner Andresen
  • Já conheceste algum dos teus poetas/escritores preferidos? (Como, em que circunstâncias?)

Já 🙂 o Mia Couto, na Bertrand. Sabia que ele iria lá estar e claro não podia perder essa oportunidade. Muni-me dos livros dele para receber autógrafos e ainda comprei o último escrito por ele e o José Eduardo Agualusa – “O Terrorista Elegante”

  • Uma tarde com Fernando Pessoa. A primeira pergunta que lhe farias.

Ricardo Reis desabafou: “…Sim, sei bem que nunca serei alguém…”, Álvaro de Campos suspirou: “Não sou nada, Nunca serei nada. Não posso querer ser nada.” e, Fernando Pessoa escreveu: “A criança que fui chora na estrada”, porquê assim?

  • Quais são tuas referências na poesia contemporânea?

Alice Vieira, Filipa Leal, João Luís Barreto Guimarães, Manuel António Pina, João Pedro Mésseder.

  • Qual foi o último texto/poema que escreveste?   

Eu escrevo todos os dias, mas preciso de os rever durante algum tempo, portanto não os sinto terminados. O que considero como último foi o poema que ofereci nos anos à minha Mãe, que vive no Porto e infelizmente comemorou sozinha, pois já não pudemos estar juntas, no fim do mês passado.

 Não estou a contar com a “brincadeira” que faço do diário de quarentena na página do Instagram #palavra_de_40tena, pois são coisas pequenas sem nenhuma essência, apenas desabafos/impulsos do dia… e uns saem melhor outros pior.

  • Se descrevesses a Joana Leitão num poema…
Anoto para não esquecer
notas que compõem o meu viver
Da carteira hoje não sai nota
para o pastel e o café
nem amanhã a caneta afirma
a nota do teste em rodapé
Coso num bloco de notas
linhas de apontamentos
são memórias de sensações
experiências e sentimentos
Alinhavando esta mudança
tenho a agulha que virar
Noto então coisa que não muda:
eu na vida sempre a anotar!

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