A voz da contracapa,  ADN do autor

Sepúlveda, o escritor do coração

Dulce Machado é o coração em pessoa, é voluntária em campos de refugiados e partilhou as saudades do escritor que encantou o seu coração.

Luis Sepúlveda partiu. Era o escritor do meu coração. Nasceu em Ovalle, Chile, em 1949. Em 1969, recebeu uma bolsa de estudos de cinco anos para estudar em Moscovo, que lhe foi retirada por “má conduta”. Nessa mesma época, trabalhou na administração de Salvador Allende, no departamento da cultura, encarregado de uma série de edições de clássicos. Após o golpe de estado de 11 de setembro de 1973, foi preso por dois anos e meio. Mais tarde, obteve liberdade condicional e foi colocado em prisão domiciliar. Conseguiu escapar e permaneceu escondido quase um ano. Durante esse tempo, formou um grupo de teatro que se tornou o primeiro foco de resistência cultural, mas foi novamente preso e condenado a 28 anos de prisão por traição e subversão, a sua sentença foi convertida em oito anos de exílio. Esteve na Suécia, em Buenos Aires, Uruguai, Brasil, Paraguai e Equador.
Dirigiu o teatro da Aliança Francesa e iniciou uma companhia teatral, depois participou numa expedição da Unesco para observar o impacto da colonização nos índios Shuar. Nessa expedição, ele morou com os Shuar durante sete meses e trabalhou com organizações indígenas para elaborar o primeiro plano de alfabetização da federação camponesa de Ibambura nos Andes. Diz-se que a sua primeira obra internacional “ O velho que lia romances de amor” teve a sua inspiração nesta experiência. Em 1979, ele ingressou na brigada internacional Simón Bolivar, que estava a lutar na Nicarágua. Após a vitória da revolução, ele trabalhou como jornalista, trabalho que continuou na sua transferência para Hamburgo (Alemanha). E, podia continuar a falar da sua vasta lista de trabalhos humanitários, de condecorações, de prémios, mas quero, sobretudo, falar-vos do Homem, do escritor.
Um homem bom, genuíno, revolucionário, um ativista que nos deixava apaixonados pelos seus livros. Os seus livros, com eles chorei, emocionei-me, apaixonei-me, sonhei, vivi. Tinha o dom da escrita dentro de si, respirava palavras que nos entravam na alma.

Tenho os livros todos. Li-os todos. Não consigo dizer um que não tivesse gostado, amei-os. Cada um com a sua história, com as suas vidas.
Com cada um deles, viajei por esse mundo fora, por todos os continentes, atravessei todos os oceanos. Fui guerreira, amante, revolucionária, gaivota, baleia, deserto, rosa, espia, fui tantas coisas. Vivi tantas vidas diferentes.
Luis Sepúlveda não morreu. Os escritores não morrem. Ficam vivos em cada página que escreveram, em cada memória que nos ofereceram. Obrigada, meu querido Luis! Ficou na gaveta o sonho de partilhar um livro ( segredo que lhe contei quando tive a sorte de o conhecer pessoalmente ).
“ Só voa quem se atreve a fazê-lo”, já miava o nosso amigo Zorbas. Meu querido Luis, iremos sempre voar juntos! Até um dia!

Dulce Machado

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