O capítulo da vida
No Desculpas para Ler somos suspeitos: gostamos muito dos livros do escritor José Eduardo Agualusa e acabámos de ler a sua última obra «Os Vivos e os Outros», recentemente lançada em Portugal pela Quetzal. Achamos que estamos perante a vida em capítulos.
Normalmente, quando falamos de um livro, os nossos interlocutores perguntam: «fala de quê?» e qual o género literário. Acho duas perguntas redutoras da beleza e mensagem que um livro pode trazer. Tenho uma dificuldade gigante em dar esta simples resposta, pois os livros são mais do que um grupo de pessoas que se encontram numa ilha para um festival literário, durante o qual, após uma violenta tempestade ficam afastados do mundo exterior, sem comunicações.
Esta podia ser a resposta simples para quem quer ouvir se há romance, se há thriller ou suspense, se há aventura. Mas o livro é mais do que isso. Ultra passa as fronteiras das personagens, responde a várias questões e tem cor ou é um arco-íris. Em baixo, sistematizei algumas das “impressões sobre este livro:

Para onde vamos depois do fim? Talvez para uma pequena ilha, pois, como diz uma das personagens deste romance, «depois que o mundo acabar, recomeçará nas ilhas». O cenário é o da beleza única e mágica da Ilha de Moçambique – onde decorre um festival literário que reúne três dezenas de escritores africanos que, na sequência de uma violentíssima tempestade no continente (e de um evento muito mais trágico, que só depois se revelará), permanecerão totalmente isolados durante sete dias.
Vocação do escritor
A maioria dos escritores tem necessidade de explicar o seu ofício. João Tordo no seu último livro «Manual de sobrevivência de um escritor» explica esta profissão. Há quem ache que os escritores são vedetas ou que a arte das palavras é uma brincadeira, porque é algo ou que pode ser visto como fácil ou como algo que é um privilégio, pois podem “dar-se ao luxo” de ficar em casa, a escrever à espera da inspiração. Nada disso. É só compararem este ofício ao de um cabeleireiro com “casa” aberta. Este tem um estabelecimento que vende um serviço, corte de cabelo, a arte de manusear a tesoura, a sua criatividade e domínio reúnem audiências, recomendações e manter a casa aberta, quanto mais “fregueses”, maiores os ganhos= sobrevivência. Ora, um escritor escreve livros, domina a palavra, é a sua arte. O seu livro, a beleza do seu livro é o seu meio de subsistência. Caso ninguém entre numa livraria e não compre livros, não recebe. A pergunta é como sobrevive? Pense nisso e dê uma oportunidade de descobrir este ofício de artesão das palavras. Agualusa fala neste ponto, expondo a vocação do autor, o seu talento e a necessidade da escrita. Ao reunir várias personagens, todas elas escritores, explica o “drive”, o motor que os leva a escolher as palavras como o seu modo de vida, o seu meio de susbsistência.
O poder das personagens
Acredito que as personagens que alguém cria numa série ou num livro, permite que haja um processo de identificação ou até mesmo de rejeição. Ao assistirmos a estas duas formas de arte, conseguimos definir o que sentimos, o que queremos e que somos. Isto é tão válido, quando ouvimos uma música no qual o cantor parece que ganha a nossa voz. Dito por outro, tudo se torna mais claro. Neste livro, Agualusa fala do poder das personagens, como elas têm vida fora dos livros, como cada um de nós tem um pouco dessas personagens e como são essas mesmas pessoas num universo do bem e do mal, conseguem mudar o mundo.
Pensei de imediato como o poder das personagens transpõe os limites do livro, filme ou série e são bem reais. Há casos conhecidos da força das personagens como o Bloomsday, comemorado a 16 de junho, dia instituído na Irlanda para homenagear o personagem Leopold Bloom, protagonista de Ulisses, de James Joyce ou o Cosplay é a abreviação de costume play, que pode traduzir-se por “representação de personagem a caráter”, refere-se à atividade lúdica a qual consiste em atuar como personagem real (artista) ou ficcional (personagens de animes, mangás, comics ou videojogos), procurando interpretá-lo na medida do possível. Os participantes dessa atividade chamam-se cosplayers.
Os lugares-comuns
Este livro é uma “lição” ficcionada para «tentar encontrar as palavras adequadas a cada coisa», citando Alain de Botton, considerado um dos mais influentes filósofos do nosso tempo. No livro «Como Proust Pode Mudar a Sua Vida», ele fala sobre o problema dos lugares-comuns. Por exemplo, «o Sol está muitas vezes incendiado e o brilho da Lua é suave». Ou seja, «o problema dos lugares-comuns não é que contenham ideias falsas, mas o facto de serem articulações superficiais de ideias muito boas.» Agualusa consegue descrever (diria de forma sublime) a forma como sentimos e vivenciamos o mundo. Deixo aqui um dos muitos exemplos, quando fala algures do livro do calor na ilha: «Mesmo com as janelas abertas custa-lhe respirar. Cornelia tentou sair para o imenso terraço e logo recuou, cega pelo bruto fulgor. Há um único sol no céu; porém mil outros ardem sem descanso na larga superfície caiada. O inferno é branco.».
Realidade e Ficção
Sem ser confuso, Agualusa deambula entre a realidade e ficção. Nós, leitores, navegamos com ele neste mundo, em que a realidade e ficção se confude. Parece um sonho, que com a cor da realidade, pensamos que o vivemos ou que é simplesmente a nossa alma, o nosso desejo, os nossos fantasmas.
Escrever a salvação do mundo
Fala da possiblidade de reescrevemos o mundo, como uma forma de o salvarmos. Fala do diálogo, das pontes entre mundos tão díspares, da esperança, da perspectiva, a nossa e a dos outros, e de como esta, pode fazer nascer a humanidade de novo.
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