Bastidores da leitura,  Cadaval e Lisboa,  Ler à Portuguesa

Leia a cidade com a Passeios Literários

A Passeios Literários cria visitas guiadas pela mão de autores portugueses. Cruzámo-nos com Sofia Lobão, uma das guia-intérpretes para nos guiar por Lisboa a propósito do artigo Ler à Portuguesa sobre os passos do polémico, imponente e todo-poderoso, Sebastião José de Carvalho e Melo, mais conhecido por Marquês de Pombal.

Recuperámos a entrevista completa para conhecer a Passeios Literários e os seus programas para que um dia destes, aceite o convite e vá ler a cidade em passeio.

  • A importância dos passeios para sentirmos os lugares, os sítios e conhecermos a história?  (aqui penso que é importante mostrar um pouco do que vocês fazem)

SOFIA LOBÃO/ PL – O grupo dos Passeios Literários (PL) começou a organizar visitas há 25 anos a partir de obras e de autores portugueses que fazem parte do programa curricular de Português. Inicialmente foi um desafio por parte de professores que pretendiam complementar as leituras com a nossa interacção como mediadores culturais na cidade, mostrando os lugares, os espaços físicos onde onde se movem os autores e suas personagens criadas, onde ocorrem as narrativas. Decidimos depois organizar visitas guiadas para o público geral (e não apenas para estudantes) e alargar a novas temáticas, História da Ciência, Urbanismo, História de Arte…

O grupo dos PL é composto por Guias-Intérpretes com larga experiência no Turismo Cultural em Portugal, pelo que contribuímos para uma melhor compreensão do contexto histórico, o estilo literário, o edificado, as histórias e as memórias da cidade. A Lisboa de Fernão Lopes é certamente diferente das de Camões, Padre António Vieira, Almeida Garrett, Eça de Queirós, Cesário Verde, Fernando Pessoa, José Saramago…são estes alguns dos autores que trabalhamos nos Passeios Literários. Noutros percursos evocamos ainda escritoras como  Angelina Vidal, Florbela Espanca, Natália Correia, Sophia de Mello Breyner… É muito estimulante ler a cidade no passado e no presente.

  • Se tivesse de aconselhar alguém que pretendesse descobrir os passos do Marquês de Pombal quais os locais (zonas do país, palácios, museus, por exemplo) que são decisivos visitarmos para conhecer melhor o poder e a personalidade de Sebastião José de Carvalho e Melo?

SOFIA LOBÃO/ PL -Sem ser exaustiva, em Lisboa naturalmente teremos que evocar o local do seu nascimento na actual Rua do Século. Não muito longe, na Rua da Escola Politécnica, o Colégio dos Nobres com a expulsão dos Jesuítas por Pombal determinada. Entre o Rato e as Amoreiras evoquemos as fábricas de seda, de cerâmica. Também foram incentivadas as fábricas de botões, de pentes e objectos da moda quotidiana no sentido de reduzir as importações e estimular as manufacturas nacionais

A Baixa expressa a vontade política e capacidade de coordenação de equipas por parte do Marquês no sentido de rapidamente impor o modelo que ambicionava de ordem, segurança, higiene, prevenção de eventual nova catástrofe, contenção de despesas, controlo social. A malha pombalina impõem-se a igrejas, palácios, serviços do Estado, actividades da burguesia, aparecendo os quarteirões com suas fachadas austeras, com portas e janelas feitas em série, as ruas numeradas. Elementos técnicos da construção pombalina, como as estacas em pinho e a gaiola podem ser observados por exemplo no Núcleo Arqueológico do Millennium BCP ou no Museu do Dinheiro. A Baixa atrai investidores destes novos apartamentos, até o próprio Marquês será investidor imobiliário na Rua da Padaria em Lisboa…

No Terreiro do Paço vemos o medalhão do Marquês colocado no pedestal da estátua equestre de D. José. Fora retirado ao tempo de D. Maria mas é reposto em 1833.

No Rossio o Palácio da Inquisição é destruído aquando do Terramoto e, a partir de Pombal, surge a Real Mesa Censória – passa a ser o Estado (e não mais a Igreja) a decidir que obras poderão ser publicadas.  

Com Pombal os jardins botânicos têm renovado interesse no sentido científico e económico, perdendo no sentido ornamental e lúdico. O Passeio Público é também uma criação pombalina, incentivando a aristocracia e burguesia a passear e a ser vista, algo que acontecerá mais tarde, com o Romantismo.  

A marca do Marquês na capital é de tal modo evidente e prolongada no tempo que a estátua do Marquês na rotunda é inaugurada em 1934. Surge-nos então altivo, observando a Baixa, a “sua” obra, ao lado de um leão, como símbolo de força e poder. Na base do monumento outras estátuas alegóricas que evocam as reformas que fez no país.

Em vários museus vemos peças de cerâmica da Fábrica do Rato fundada pelo Marquês. Em tantos lugares da cidade identificamos as cores e os modelos de azulejos pombalinos que decoravam interiores de proveniência da Fábrica de Sant’Anna, ainda hoje a operar (encontra-se perto da Junqueira).

Em Belém vemos o Jardim Botânico Tropical onde podemos evocar Pombal pela importância que dá à experiência em botânica. Aqui vemos além do homem investidor e empreendedor, o gosto das Luzes.

Também em Belém evocamos o seu lado sombrio e inclemente: no Beco do Chão Salgado e a memória funesta dos Távoras. As terras foram salgadas por ordem de Pombal para que nada mais aí medrasse. 

Veja-se também o lugar para onde foram transportados os seus restos mortais em 1923 – A Igreja da Memória, associada à tentativa de regicídio a D. José.

Visite-se ainda o Museu do Azulejo para ter a visão de Lisboa pré-terramoto, testemunho fenomenal a partir de um ponto aéreo imaginário sobre o rio. Atentemos como a cidade mudou de fisionomia. Vejamos ainda a maquete da cidade no Museu de História de Lisboa, onde também se conserva o retrato do Marquês.

Fora de Lisboa são igualmente inúmeras as evocações a Pombal. As melhorias urbanísticas no Porto, a reforma da Universidade de Coimbra e o encerramento da de Évora, o plano de Vila Real de Santo António, são muitos os lugares…

  • Quais são factos, expressões, marcas que ficam até hoje deste período da história e da figura do Marquês?

SOFIA LOBÃO/ PL – Em Lisboa mantemos na toponímia referências claras. A Rua dos Terramotos, por ex, a “Praça do Comércio” ainda hoje conhecida como “Terreiro do Paço”. A sobrevivência de alguns bairros explica a expressão “rés-vés Campo de Ourique” (sinónimo de por pouco, por um triz, à justa) ou outros menos afortunados “Cai o Carmo e a Trindade” (sinónimo de colapso, catástrofe). “Enterrar os mortos e cuidar dos vivos” é expressão que a tradição atribui a Pombal.  A expressão “cristão-novo” atribuída aos antigos judeus, passa a ser proibida com Pombal.

Em Sebastião, encontramos, por um lado, um homem que reconstruiu uma cidade em ruínas, mas, por outro, alguém que está muito ligado à terra, com o impulso que deu ao vinho por exemplo, é percetível esta combinação de um homem urbano e da terra?  

Não o vejo como “homem da terra”, Pombal era mais um “homem urbano” para usar a sua terminologia. Era claramente um homem da cidade com alguns investimentos no campo, nomeadamente nas suas quintas de Oeiras e Gradil. O Marquês é sem dúvida um homem inspirado pelas ideias do Iluminismo, a sua vivência como diplomata em Londres e em Viena contribuem para o seu espírito urbano, mercantil e de alguém que compreendia os desafios da balança comercial. Aposta na manufactura nacional e na exportação de produtos, como os vinhos do Douro. Os vinhos de Carcavelos têm o seu período áureo com Pombal mas só serão exportados no século XIX.

  • Quais os alguns passeios que já têm e em que há aspectos desta época que sejam focados ?

SOFIA LOBÃO/ PL -Organizamos regularmente um percurso a partir da obra de Saramago Memorial do Convento onde naturalmente evocamos os lugares pré e pós terramoto, do mesmo modo que o escritor sobrepõe várias cronologias. Com visitantes estrangeiros e incontornável mencionar Pombal. Com grupos franceses evocamos sempre a produção literária de Voltaire, as memórias de Jácome Ratton ou de viajantes históricos estrangeiros que se impressionam com a vivência de Lisboa. Os novos itinerários que propusemos “O caminho das estátuas”, “Ciência em Lisboa”, “O Bairro da Graça” são percursos que cruzam algumas ideias do legado pombalino. No exercício da nossa actividade como Guias-Intérpretes, como mediadores de cultura, temos como clientes pessoas de diferentes origens e interesses. São inúmeras as abordagens ao património literário, material, natural e imaterial. 

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